sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Aluno na Escuela de Verano 2013/ Topic e UNIMA Espanha, em Tolosa, Es: Relato de minha experiência, impressões e aprendizados.... Ou porque Bonequeiros são seres desandados na vida!

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Apresentação de encerramento da Oficina Poética da Sombra (Alejandro Szklar), com participação especial de Stephen Mottran e suas marionetes.

No período de 01 a 08 de Julho de 2013 vivi uma das mais significativas experiências de formação, intercâmbio e fortalecimento de laços, como artista bonequeiro. Desde Maio me vi animado, excitado com uma bolsa para participar das oficinas na Escuela de Verano promovido pela UNIMA Espanha e Topic (TOPIC- TOLOSA PUPPETS - INTERNATIONAL CENTRE), em Tolosa – Espanha.

Malas prontas, passaporte na mão, muita expectativas e embarquei nesta aventura com mais dois brasileiros queridíssimos: o Alex Souza, artista bonequeiro, de Florianópolis - SC e Márcia Alves, de São Vicente – SP.

Os Aprendizados

Realizamos três oficinas de formação profissional nos espaços de Topic: “Marionetes e Movimento Sequenciado”, com o marionetista inglês Stephen Mottram, “Poética da Sombra”, com o sombrista argentino Alejandro Szklar e “Títeres e Objetos: Médium e Mediador” com a educadora e titiriteira inglesa Rene Baker. Diariamente, nos dedicamos a processos de formação intensos, de cerca de 8 horas diárias. Não chegava a ser cansativo, pois cada proposta de formação era muito instigante, desafiadora e inspiradora.

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Na Oficina com Stephen, pudemos imergir em exercícios e reflexões sobre a importância do movimento no teatro de bonecos, especificamente nas marionetes. Stephen nos falava da importância de este movimento ser algo “mágico” para a plateia. Mágico no seu sentido bem literal mesmo: Onde reside a magia, o encanto do Teatro de Animação senão na ilusão paradoxal de objetos inanimados, “mortos”, com movimentos e atitudes “vivas”? Fomos ao âmago do encanto da arte com títeres – do seu sentido mais estético e antropológico à técnica e precisão da criação e do movimento.

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Como parte destas reflexões, fomos desafiados a elaborar um projeto individual de marionetes, com proposta de movimento sequenciado e inspirado no movimento animal. Dureza! O meu projeto “Ondina” deu um nó na minha cabeça, do desenho à construção do protótipo. Daí ao movimento sequenciado foi outro longo caminho. Quantos aprendizados! Tive que pedi socorro ao Stephen algumas vezes. Era um corre-corre por cada centímetro quadrado do atelier de Topic, todo mundo calejando as mãos e fritando os neurônios para construir um projeto com sucesso. O resultado final também pode ser definido como “mágico”: Ondina, dinossauros, aranhas gigantes, besouros humanóides, animais marinhos e toda uma gama de criatividade dos oficinandos, traduzidos em marionetes bem engenhosas.

Stephen é especial. Nos fez sair do curso com mais perguntas e curiosidade do que com respostas. Um caminho imenso de possibilidades se abre agora para cada um de nós, a partir de nossos singelos projetos individuais. Espero que um dia o meu “Ondina” seja um espetáculo encantador, de movimento mágico e que faça o público embarcar numa grande viagem, tal como fomos instigados a fazer durante a formação.

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Trocando ideias de sombra e luz com o sombrista argentino Alejandro Szklar.

Com Alejandro Szklar, fizemos outra viagem: pelo universo poético, luminoso e, porque não dizer, sinistro da sombra. Mais que um curso de técnicas, a Oficina “Poética da Sombra” foi um grande laboratório de experimentações, de invenções, de arranjos e perguntas para se buscar a sombra, manipulá-la, deixar-se ser buscado por ela, ser manipulado por ela. Encantador! Alejandro Scklar me fez lembrar muitas vezes, seja pelo seu jeito de conduzir a oficina, seja pela metodologia utilizada, o sombrista Alexandre Fávero e a experiência vivencial que tive com o Lumbra, em Morro Reuters – RS, em Janeiro deste ano. Um professor afetivo com o grupo e efetivo no processo de formação. Formas, cores, silhuetas, luz, técnica, enredos, criação coletiva (sempre!). Assim fomos conduzidos a investigar a linguagem teatral da sombra. Penso que ela não nos abandona mais. Foi maravilhoso revisitar a sombra e sua teatralidade poética.

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Rene Baker me causou incríveis impressões com sua mini oficina sobre as possibilidades de uso pedagógico e terapêutico do teatro de animação – o títere e o objeto como médium e mediador de processos. Apontado como uma tendência e um caminho novo, ainda pouco explorado, me reportou logo ao meu Projeto Fuzuê. Desde 2006 atuo com o Teatro de Bonecos baseado na “ideia fixa” de que este pode colaborar com processos educacionais, de saúde e de ativismo social. Fiquei contente por saber que, aos poucos, artistas e grupos pelo mundo estão aderindo a esta concepção de forma comprometida. De repente, não me senti mais só na multidão.

O Museu de Topic

Idoya Otegui, diretoria de TOPIC, mediou uma visita nossa ao museu de teatro de bonecos. Aqui cabem algumas considerações sobre a pessoa carismática de Idoya. Juntamente com sua equipe, foi muito presente acompanhando as atividades, acolhendo e encaminhando necessidades individuais ou coletivas. Uma amiga. Uma apaixonada por títeres.

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O museu é uma experiência única, difícil de descrever. Se ver diante de tantos tipos de bonecos, de tantas possibilidades, filmes, sons, materiais de estudos, etc, tudo dedicado à arte bonequeira é de encher a alma. Encontrei no museu de tipos antigos, orientais, raros, aos nossos alegres Mamulengos. O mundo inteiro está representado ali na figura emblemática do Boneco. Um museu diferente, onde podemos está perto dos títeres, até tocá-los, se entregar aos seus encantos.

Ao sair do museu, copilei dois aprendizados muito pessoais: a grandeza e a humildade da arte com bonecos.

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Mariona, a mascote de Topic.

A grandeza está em sua diversidade, surgindo em todo mundo como uma manifestação cultural autêntica e antropologicamente arraigada em nós. “Os títeres são imprescindíveis. Só não sei para quê”. A frase, de autoria anônima, está no elevado de Topic. Sim! São imprescindíveis, mesmo que não os compreendamos. Somente quem ainda não teve contato com um títere pode falar de sua inutilidade. Para quem teve, mesmo que eles não sejam uma presença constante, os consideram necessários para a vida. Por quê? Quem sabe! Humanos fazem títeres. Títeres é uma prova concreta de que somos o que somos. Talvez seja só por isso. Não é possível explicar isso de forma exata. É uma subjetividade.

A humildade grita no coração do artista quando ele visita o museu. São tantas possibilidades, tantos tipos, todos tão belos, tão únicos em meio a esta diversidade toda que a conclusão que chego é: não existe trabalho maior ou menor no Teatro de Animação. Existem possibilidades. Cada um de nós expressamos uma possibilidade, inventamos uma. Ninguém será a primeira nem a derradeira palavra nesta arte. Nada é definitivo. Diante de tanta beleza e surpresas, o museu nos ensina a importância de reverenciar e respeitar o trabalho do outro, dentro de tudo que ele tem de beleza, potencial e de limites.

A grandeza e a humilde de nossa bela arte. Valores que revisei com carinho no museu.

Bonequeiros são uma grande família!

Não tem essa de sermos assim ou assado, porque se é brasileiro, espanhol, belga, inglês, italiano, francês. Bonequeiros reunidos são uma grande família!

Foi neste espírito de fraternidade, carinho e amizade que todo o curso transcorreu. Quantos risos, brincadeiras, gracejos e cafés nós partilhamos! Quantos abraços!

E eu que andava tão preocupado com o idioma, ou com a falta dele, pouca falta senti. Sorrir é uma linguagem universal. Além de bonecos, todos éramos experts em sorrir. E assim, todo mundo se entendeu.

Relevância para a carreira profissional

A experiência em Topic é certamente um divisor de águas importante para minha carreira. Penso que para cada um dos artistas e curiosos que participaram das oficinas e conviveram por todos aqueles dias lá. De forma especial para mim, três importantes saberes permeiam a minha prática e reflexão com Teatro de Bonecos, com reflexos em projetos e atividades futuras:

1 – A importância do aprimoramento da técnica, tendo como lastro uma base conceitual clara. Fala-se muito na importância da inter-relação entre teoria e prática e, no caso da arte, da entrega e da intuição. Fazer este caminho e perceber a base teórica interagindo com o labor no ateliê não é tão simples. Mas quando nos aprofundamos antes e durante em bases conceituais sólidas, passamos a ter mais domínio da nossa arte e isso agrega qualidade ao nosso trabalho, sejam oficinas ou espetáculos. O bonequeiro precisa de livros e espaços/ momentos de formação. Não só de serrotes, madeiras e estiletes. Isso observei em cada um dos professores, ministrando conteúdos de forma leve, mas sem “achismos”. Uma base conceitual clara somada a uma experiência prático-profissional sólida.

2 – Refletindo sobre a Oficina “Títeres e Objetos: Médium e Mediador” e na minha experiência com o Projeto Fuzuê, que propõe convergências do Teatro de Bonecos com temas sociais (educação, saúde, cidadania, etc), percebi o imenso vácuo bibliográfico que existe dentro deste tema, do Teatro de Bonecos enquanto Instrumento e Processo, interagindo e colaborando com outras temáticas, com a vida e o mundo. Sinto-me profundamente instigado a sistematizar e refletir esta experiência em um projeto de livro para o próximo ano, ou 2015 no máximo. Penso que existem muitas experiências assim mundo afora. Se cada artista pudesse sistematizar e disponibilizar isso de alguma forma, seja por uma publicação, seja pela internet, poderíamos de alguma forma reduzir este vácuo.

3 – Não somente eu, mas penso que a maioria dos oficinandos passaram muitas dificuldades para estar em Tolosa fazendo esta formação. São as dificuldades com o tempo, o dinheiro, a logística de uma viagem, etc. Em nenhum momento pensei em desistir, mesmo quando a ida parecia irremediavelmente comprometida. Fui. Voltei. Valeu muito à pena. Não conseguiria sozinho. Amigos me ajudaram, nem que fosse dando uma palavra de incentivo. Aprendi que não podemos desisti daquilo que queremos. Parece óbvio e piegas, mas muita gente fala da importância da gente fazer aquilo que gosta, viver o seu sonho. Quase ninguém sabe o quanto isso custa. Custos emocionais, incompreensões, falta de incentivos de alguns porque a coisa não dá dinheiro. Dinheiro é de menos. A gente tem que investir pesado no sonho que tem. Investir vontade, disciplina e crença nela. Dinheiro chega, vai embora. Podemos ir da pobreza à fartura por diversas vezes ao longo da vida. Mas não se tem duas vidas para se viver o sonho pessoal. Itsaso me falava isso, sorrindo de minha trajetória pessoal, de como os bonecos me desandaram na vida. Bonequeiros são seres desandados na vida. E são felizes, porque esta vida é pouca para tanto sonho e tanta imaginação que se tem e que os Bonecos nos permitem expressar e compartilhar. Troquei um terno por um colete colorido. Não tenho dinheiro. Mas estou feliz. Estou bem!

Agradecimentos

“As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo” (Epicuro)

Parece que foi ontem, mas por todo sempre meu coração será só gratidão!

- À UNIMA INTERNACIONAL/ Comissão para a América Latina, na pessoa de Susanita Freire. Uma queridona, que nos acompanhou desde o resultado da seleção, durante os perrengues para organizar a viagem e com quem compartilhamos os primeiros aprendizados. É só chamarinbox que ela, antenadíssima que é, está de prontidão!

- À TOPIC e UNIMA Espanha, na pessoa de Idoya Otegui. Grato pela acolhida e amizade que nos devotou durante toda a estadia em Tolosa.

- Aos colegas brasileiros, Márcia e Alex. Que barbaridade foi está com vocês, rindo de tudo, rindo às vezes pra não chorar e rindo até chorar de tanta alegria. Partilhamos muitas coisas juntos, inclusive um sonho bom de reencontro e até de trabalho coletivo e colaborativo. Vai rolar! Vai rolar!

- Os oficineiros, Stephen, Alejandro, Rene. Todos tão generosos em abrir suas experiências profissionais, conceitos e visão de mundo para partilhar conosco. Deus os abençoe!

- Aos colegas da Oficina, todos e todas! Quero saudá-los e agradecê-los na pessoa de Manolo e Encarni, artistas maravilhosos e acolhedores. Penso que eles representam o sentimento do grupo todo!

- De forma especial a Itsaso que, no meu retorno, me hospedou em sua casa com tanto carinho e me levou a um passeio cheio de descobertas pelas ruas da antiga San Sebastian. Espero voltar a abraçá-la. Para tomar uma cidra e ouvir um som do Bruce Springsteen.

- À nossa colega de hospedagem, a madrilena Raquel Reinoso, que no fim das contas estava mais brasileira que os três brasileiros juntos.

- Ao amigo Antônio José (Fortaleza – CE) e minha irmã, Leonarda Alves (Jandira – SP), que me deram força na organização da viagem, item por item. Sozinho a gente não é nada!

Porto Alegre, 25 de Julho de 2013.

Leandro Silva | Artista Bonequeiro

Bolsistas brasileiros: Leandro Silva (Porto Alegre – RS), Alex Souza (Florianópolis – SC) e Márcia Alves (São Vicente – SP).

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Com Idoya Otegui (Topic Tolosa); no alto, a turma reunida; abaixo, com os professores.

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Encarni e Manolo com a sua Mariona.

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A gente divertiu muito também! Com Raquel, Chema, Conrado, Márcia e Alex.

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Um cartão postal de San Sebastian para não esquecer. Pôr do sol, sobre foto com a amiga Itsaso. Fotos tiradas na mesma ocasião. Era o caminho de volta pra casa...

 

Um comentário:

Antônio José disse...

Estimado amigo, sua energia e coragem de enfrentar o mundo e seus desafios nos fazem crer que é possível construir, com arte, relações mais saborosas, encantadoras e felizes. Beijo no coração. AJ