terça-feira, 12 de março de 2013

Mensagem em Comemoração ao dia Mundial da Marionete


Tradução livre, de Ildeberto Gama, a partir da versão francesa em http://
www.unima.org/uniF_Message13.pdf , no dia 11 de Março de 2013 :

Dia Mundial da Marioneta

21 de Março de 2013

A UNIMA tem o prazer de apresentar a Mensagem para o Dia Mundial da Marioneta 2013.
Pedimos, este ano, a um renomado músico italiano, o Maestro Roberto De Simone, que é igualmente um
autor, encenador e especialista da tradição napolitana de Guarratelle e Pulcinella.
Esta escolha vem na sequência da visita que Pudumjee Dadi e eu próprio fizemos a Roma e Nápoles,
por convite da direcção da UNIMA-Itália, o que também nos permitiu conhecer Acerra, cidade natal do
personagem Pulcinella do qual nos viemos a tornar Ambasciatore Globale.
Agradecemos ao director e à equipe do prestigiado Museo di Pulcinella di Acerra, pela honra que nos
concederam convidando-nos a visitá-lo.
Todos nós sabemos a imensa influência que o caráter de Pulcinella exerceu no mundo das marionetas e
a sua evolução gradual, sob formas e aparências distintas, na cultura de muitos países.
O texto do Maestro permitir-vos-á entrar no coração da cultura napolitana e sensibilizar-vos-á para a
dimensão musical e rítmica que deverá possuir todo o bom mestre marionetista.
Nossa arte é única e em plena efervescência.
A 21 de Março de 2013, celebremos a Marioneta! Tenhamos consciência de que, entretanto, algumas
formas tradicionais estão em perigo e precisam de proteção.
A este respeito, Nápoles e a sua região são um exemplo a seguir: a transmissão da tradição ocorre de
modo respeitoso e vivificante entre mestres e discípulos há mais de 500 anos.
Jacques Trudeau
Secretário-Geral da UNIMA

Roberto De Simone
Diretor e musicólogo italiano, a sua dedicação a temas antropológicos também estão presentes, entre
outras, em obras como Fiabe campane (1993).
Trabalhou como músico e diretor, muitas vezes em colaboração com a Nuova compagnia di Canto
Popolare. Foi director artístico (1981-1987) do Teatro San Carlo de Nápoles e tem dirigido numerosas
óperas.
Nomeado em 1998 membro da Academia de Santa Cecília, veio ainda a receber, do Presidente da
República francesa, o título de Cavaleiro das Artes e das Letras.
Em 2003, recebeu o prémio Roberto Sanseverino.
(In: enciclopédia Treccani.it , Itália)

Veja a seguir:

Mensagem Internacional de Roberto De Simone, para o Dia Mundial da
Marioneta, 21 de Março de 2013.

O meu primeiro encontro com Pulcinella inscreve-se nas minhas primeiras

lembranças de infância, quando Pulcinella fazia parte do imaginário de todas as crianças

napolitanas.

Podíamos então encontrá-lo nas ruas, nas deslumbrantes cestas de brinquedos dos

vendedores ambulantes e nas barracas de feira pelo São José, ou pela Epifania, ou pela

festa de Piedigrotta, onde os brinquedos tradicionais eram expostos para venda. Entre

eles estava um pequeno Pulcinella , o qual, montado num carrinho miniatura e animado

por uma vareta, batia mecanicamente as mãos equipadas com pequenos címbalos de lata.

Havia também, frequentemente, um outro brinquedo que consiste num pequeno cone de

cartão vermelho, dentro do qual estava inserida uma corneta com uma pequena palheta, a

Pivetta, e com a qual se podia interpretar o refrão de uma tarantella tradicional. Também

fazia parte do artefacto, um fantoche à semelhança de Pulcinella, cuja camisa estava colada

ao rebordo do cone, e que um pedaço de arame aí introduzido e impulsionado por qualquer

criança faria movimentar para cima e para baixo.

Obviamente, o jogo, pela insinuação sexual associada a este movimento, conferia ao

nosso herói um significado fálico, também reforçada pela presença noutras manifestações

tradicionais.

Finalmente, Pulcinella comparecia ainda em rimas de músicas para crianças, em

cantigas de roda, em fábulas, em suma, pertencia à textura irreal da tradição, de modo que,

em primeiro lugar alimentava a função iniciática e, de seguida, adquiria uma profunda

significação misteriosa e emblemática.

Para tudo isto, o teatro de fantoches itinerante Guarattelle também contribuiu

seriamente, lá onde ganhavam vida o fantástico Pulcinella, Teresina (a sua namorada),

o Cão, a Morte, o Carrasco, e outros, apresentando-se ora na Piazza del Gesù, em San

Domenico Maggiore ou à Porta Capuana, magnetizando a atenção das nossas caras de

crianças que, de boca aberta, vivíamos aí a profissão de fé da nossa Bíblia onírica.

Voz de Pulcinella:

Puè puè puè puè puè

puere puè puè.

Mostra-te Teresa

Vem mostrar-te na tua varanda,

Que eu quero que oiças uma música bonita.

Por fim, quero ainda dizer-vos que, mesmo no repertório tradicional do Teatro

Guarattella, podemos encontrar personagens e cenas que parecem ter sido tomados por

empréstimo da tradição judaica, da tradição espanhola, da tradição do teatro latino, e até

mesmo do teatro grego.

O termo guarattella é a versão, em dialecto, de Bagattella (um caso trivial), e deriva

de Bagatto que é uma das cartas maiores do tarot, cuja origem cabalística foi veículo de

elementos e histórias frequentemente encontrados entre os enredos do repertório do

teatro Guarattella.

Terminarei com uma declaração pungente que gravei da viva voz do derradeiro

guarrattellaro fiel à antiga tradição napolitana, chamado Nunzio Zampella, falecido

prematuramente, e que tinha no seu ADN os cromossomas da antiga arte "pulcinellante",

o qual, à questão «até que ponto a utilização da Pivetta é importante para o marionetista

tradicional», respondeu:

Zampella: "- É crucial! A arte da marioneta não é fácil. O manuseio pode ser simples,

mas a mímica é musical, o movimento é música. A coisa mais difícil é a voz dupla, isto é,

saber alternar a voz natural e o uso Pivetta para a voz artificial. O marionetista deve ser

capaz de reproduzir todas as vozes: a da mulher, do polícia, do monge, de Pulcinella, a

voz do cão, e até mesmo a da morte. Porém, qualquer que seja o disparate pronunciado

no espectáculo, ele deve tornar-se em ritmo. Essa é a verdadeira força da Guarattelle: o

movimento é ritmo, as palavras são música. “ (21 de Junho de 1975)

* A marioneta Pulcinella foi criada por volta de 1620 e inspirou dezenas de

outros personagens do teatro popular europeu que foram, todos, capazes de alegrar e

proporcionar um espaço de liberdade aos seus públicos.

Desejo a todos, nos cinco continentes, um fabuloso Dia Mundial da Marioneta!

Nenhum comentário: