terça-feira, 9 de outubro de 2012

“Mensagem em uma garrafa”


Entrevista com Javier Villafane

por Chico Simões (chicosimoes@gmail.com )


Outro dia ouvindo velhas fitas K-7 sem indicação de conteúdo, me deparei com a voz doce e pausada do grande amigo e mestre titeriteiro, argentino, cidadão do mundo, Javier Villafane. Era uma tarde de um 26 de maio de 1993, estava eu em Buenos Aires, passando pela casa de Dom Javier Quixote de los títeres, pedi permissão para gravar uma conversa, histórias de Javier em suas andanças pelo Brasil. Luz Marina com carinho regava o papo com mate e medialunas. Resolvi transcrever para deixar a conversa seguir falando por si...


Chico: Mestre, podemos falar um pouco de seus caminhos pelo Brasil?
Javier: Deixa ver se me lembro... A primeira vez que estive no Brasil foi pelo ano de 1937. (Luzmarina serve o Mate) Rico Mate Neném... Eu estava fazendo Títeres então com um pintor, que gosta muito do Brasil e que fez uma obra muito importante, Liper Fritman, então havíamos andado pelo interior da Argentina nas províncias de Missões, Chauco, Entrerios, correntes e fomos a Uruguaiana, em Uruguaiana, fazíamos títere, então construímos um teatro para viagem, fácil de armar e desarmar, que metíamos em uma bolsa ... Depois voltamos à Argentina e uns anos mais tarde eu fui ao Rio de Janeiro ... me havia convidado a ir ao Brasil a poeta Gabriela Mistral que era cônsul do Chile, e um grande poeta: Carlos Drumond de Andrade, ele estava ao Ministério e era muito amigo de Gabriela Mistral, então se comunicaram comigo, porque eu havia publicado dois livros, de contos e lendas, ambos ilustrados por crianças pequenas e a Gabriela essa idéia de que as crianças ilustrem livros e que tivessem participação tão intima, tão diretiva nesse trabalho, lhe encantou muito e se interessou para que eu levasse ao Brasil, e levei também os Títeres juntos a uma exposição de desenhos e pinturas de crianças argentinas. Cheguei ao Brasil e se organizou essa exposição que o Conselho Argentino de Cooperação Intelectual (tem um nome assim, muito pirado). Essa exposição se fez no Pedagógico do Rio de Janeiro.

Chico: Como as pessoas receberam essa exposição? Porque, creio, era novidade...
Javier: Sim, era uma coisa sem antecedentes, aqui na Argentina também era novidade, nunca se havia feito.... então fizemos essa mostra, ocorre que foi muito bem recebida pela crítica, pelos jornais, muito bem recebida no Rio também, ai conheci Augusto Rodrigues...

Chico: Ele então, o que fazia?
Javier: Nesse momento ele desenhava, pintava e tomava cachaça e nos fizemos muito amigos, depois Augusto criou a Escolinha de Arte do Rio de Janeiro, e ele na primeira exposição que fez, me convidou, então fizemos essa exposição e depois levamos para São Paulo, mas voltei ao Rio... Eu estava em uma coisa muito oficial, havia intervenção da embaixada, o ministério da cultura...

Chico: O tal plano de alfabetização?
Javier: Não, não, isso é a parte, isso organizava uma gente que estava vinculada ao partido Comunista...

Chico: Como assim?...
Javier: Desta 2ª vez que fui ao Rio, eu vivia na casa de um tipo maravilhoso que se chamava Rubem Braga...(longa pausa)

Chico: Um grande escritor...
Javier: Que já se foi...Então, depois me puseram pra fora do Instituto de Cooperação Intelectual...

Chico: Porque estava com os comunistas?
Javier: Não, não por isso... Porque fiz muitos escândalos...Por exemplo, te conto uma; Nessa época não havia farinha de trigo no mercado, então eu tinha um amigo, que era um tipo que vivia da noite e íamos com ele a distintos cabarés, e uma noite estávamos reunidos em um bar bebendo e uma senhora
disse:
- Lastima que não tenho farinha de trigo, pois se tivesse haveria de fazer uma comida maravilhosa...
Mas eu lhe disse:
- Posso conseguir “farinha branca” na Embaixada Argentina.
Então era como que umas seis da manhã, por ai, e vamos em carro para Embaixada da Argentina, todos muito bêbados, muito “borrachos”... Na embaixada chamaram a policia... estivemos presos por umas horas e não conseguimos farinha branca... Isso bastou para o meu distanciamento da Embaixada, mas fiquei no Rio e das coisas que me recordo era essas funções pelos morros...A mulher de Rubem Braga traduziu umas peças de títeres ao português, então fazíamos com ela e um grupo de gente... moças e rapazes, íamos fazer os títeres, então ali havia conhecido, bom eu ia sempre com Carlos Drummond, eu o queria muito éramos amigos, também conheci outro tipo que queria muito que era Manuel Bandeira e na casa dele fazíamos títeres, ele tinha uma casa com um belo jardim e reunia aí poetas, pintores, escultores e fazíamos títeres com Caribé...Me recordo que fazíamos, olha que lindo era...
Havia, se vendia na feira, na rua, uns romances de cegos, que o tabaqueiro nos vendia, os romances falavam de acontecimentos de história ou transcendentes, importante é que havia passado e alguém escrevia aquela história.

Chico: Literatura de cordel...
Javier: Exatamente...Eu tinha uma coleção completa que se perdeu... Tudo isso .... Então havia um crime famoso que se chamava “o crime da mala” era uma mulher que tinha um amante, então a mulher e o amante planejam matar o marido e numa parte da história diz; é muito gracioso... “Ela com voz doce e terna/ Mandou corta-lhe uma perna/e logo um braço depois.”-(risos)- o caso é que o mataram, o meteram em uma mala e o atiraram no mar, creio que se descobriu a maleta, se revelou o crime e escreveram a história de cego em romance de cordel como se diz e eu teatratizei e fiz com títeres, eu e essa gente...Duas moças e um rapaz, não me lembro os nomes agora ... E depois foi outro drama, um romance muito popular, havia ocorrido naqueles dias... Uma mulher queria se atirar no mar, uma velha prostituta cansada, havia perdido a filha ... E ia atirar-se ao mar, aí aparece, depois de muitos anos que não se viam, a filha que ia do mesmo penhasco se suicidar, então “não querendo riquezas / nem nada de valor se reconhecem se abraçam, se amam e vivem felizes para sempre”... Isso fazíamos, eu movia os títeres mas não fazia as vozes, porque nunca pude, sou muito ruim para os idiomas.

Chico: O senhor chegou a ir ao nordeste? Conheceu o mamulengo?
Javier: Eu fui uma vez com Augusto Rodrigues ao Recife. Fomos com os títeres, eu fiz títeres com um titiriteiro de lá, mas não me lembro o nome, pois, esse mau costume de não ter um caderno... Voltamos ao Rio, eu estava apaixonado por uma mulher muito linda, vivia na casa dela, não sei o que passou... Uma noite ela não estava em casa, creio que foi atender um chamado da mãe, fora do Rio, abaixo de casa havia um bar e fui ao bar e me encontrei com um amigo pintor e duas amigas modelos e subimos ao apartamento, no dia seguinte, eu estava com a cabeça no travesseiro... Soa o timbre e me despertei, então a dona da casa, essa mulher tão linda, que havia retornado, ficou muito furiosa e com ciúmes me põe pra fora... Eu fiquei muito triste e voltei a Buenos Aires, eu tinha autorização para andar nos aviões, mais vim de navio, só que o navio que eu vim, estava parado há vários dias no porto do Rio, tinha um defeito, e toda manhã eu ia ao navio, mas ele não partia, me diziam pra voltar no dia seguinte e nada, fiquei uns dias assim, até que me contaram, que o capitão do navio, tinha uma amante em cada porto, então quando ele pilotava, o navio ia ficando e a tripulação festejava muito pelos portos. Então uma manhã eu cheguei ao navio e o Capitão estava lá, furioso porque havia saído uma nota no Diário do Rio contando a história do Navio, do Capitão e suas amantes..., e ele perguntava: “quem foi o filho da puta que fez essa broma?!” E eu calei a boca senão ele me matava... Havia feito a nota, Rubem Braga, era muito bonita...Então o capitão teve que partir e eu pude vir embora... no barco escrevi um poema que se chamava “Mensagem em uma garrafa” e dediquei a essa amiga no Rio... Atirei ao mar, um marinheiro havia me ensinado a fazer com que a garrafa flutuasse... Mensagem numa garrafa... Deve andar navegando por ai se alguém não encontrou... E essa é uma parte, um pouco de assalto, de minha história com o Brasil.

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