segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Faleceu o Professor Bordenowski em Curitiba


Sábado, partiu para o andar de cima o bonequeiro ventríloco Professor Bordenowski, para aquele que não o conheceram segue uma matéria.


Quando a vida tem que ser mágica

Em entrevista o ventríloquo Valdemiro Bordenowski fala de sua carreira
03/06/07 às 00:00 atualizado às 20:26 Sirley Cardoso/Especial para o JE
Ele tem 83 anos e seus olhos conservam o brilho inocente do olhar de uma criança. É apaixonado pela vida, pelo que faz e pela causa do voluntariado. O mágico e ventríloquo Valdemiro Bordenowski não abandona seu lado “artista”, para levar equilíbrio, alegria e esperança a platéias de crianças doentes nos hospitais de Curitiba. Só precisa de ajuda na hora de carregar as duas pesadas malas da mágica e dos bonecos, Juquinha e Bastião que revelam todo o seu lado criança. Há mais de 15 anos se apresenta como artista voluntário nos hospitais, Pequeno Príncipe e Erasto Gaertner. É um dos primeiros voluntários do programa Rede Sol - da Fundação Cultural de Curitiba. “A arte voluntária é a melhor coisa que faço na minha vida. Só vou parar, no dia em que eu não estiver mais por aqui”, diz o professor Bordenowski, como é conhecido pelo público.
E, a cada frase de suas histórias, ao longo dos seus 65 anos de vida artística, como mágico, ilusionista, ator, ventríloquo e manipulador de bonecos, ele, sem a menor parcimônia, deixa cair umas lágrimas que evidenciam suas emoções. A história de se apresentar em público, só por prazer e para dar prazer, começou quando ele tinha apenas dez anos. Nos fundos de sua casa ele já reunião os amiguinhos da vizinhança para improvisadas performances com teatro de bonecos. Vendia pipoca no circo só para não pagar pela entrada e, claro, para assistir à apresentação do mágico que nunca lhe ensinava os truques. Tudo o que sabe aprendeu nos livros. Um dos primeiros artistas a se apresentar na televisão, ele atuou com os irmãos Queirollo - de tradicional família circense.

Jornal do Estado —O que é ser um artista solidário?
Bordenowski — É a melhor coisa que faço na vida. Só vou parar, no dia em que não estiver mais por aqui. Todo artista deveria experimentar. É muito gratificante e não tem dinheiro que pague.
JE — O Rede Sol vai até pessoas que estão fora do convívio social. Isso certamente afeta o emocional do artista. Não afasta o voluntário?
Bordenowski — Acredito que sim. Mas quanto a mim, posso garantir que quanto mais me apresento para este público, mais me envolvo e mais quero me envolver. Afastar, jamais.
JE — E a emoção...
Bordenowski —Choro bem fácil e isso não me incomoda. Viver é se emocionar. É rir, chorar. Claro que também choro de alegria quando vejo um sorriso na criança doente de câncer, na criança abandonada num orfanato, no idoso esquecido num asilo, num detendo no presídio. É muito bom passar umas horas com eles e o aplauso deles é sensacional, pode crer. 
JE — Suas apresentações são interativas. Até que ponto isso não atrapalha o artista?
Bordenowski —Não atrapalha nunca. Uso isso para que as crianças se sintam importantes, úteis e amadas. Eles interagem e até a mais doentinha parece despertar.  Mas às vezes a interação nos prega uma peça.
JE — Por exemplo,
Bordenowski — Uma senhora, numa cadeira de rodas disse pra mim: “que bom seria se sua mágica fosse de verdade e pudesse colocar uma lembrança no coração dos meus filhos e netos para que me telefonassem qualquer dia desses”.
JE — E que o senhor faz em momentos de 
Bordenowski — O que fazer a não ser dar um abraço, oferecer nossa ternura, nosso amor?
JE — O senhor já chorou na frente dessa sua platéia?
Bordenowski — Procuro sempre me controlar, mas uma vez, estava me apresentando para crianças com câncer, no Hospital Erasto Gaertner e não consegui conter as lágrimas e desandei.
JE — Como foi?
Bordenowski—Tinha uma criança no cantinho, bem desanimada, mas ela havia prestado atenção nas mágicas que eu fazia. E quando terminou a apresentação, ela se levantou da cadeira, veio até mim e disse que queria se despedir. Eu muito alegre respondi: “que bom que você já vai para a casa, meu bem”. Ela olhou nos meus olhos e replicou: “Estou indo para o céu”. Fiquei muito mal, olhei para a enfermeira, que justificou:  “A gente previne nossos doentes, dizendo que eles vão virar anjo”, contou. Então, eu pedi para aquele anjo que orasse por mim e até hoje eu sinto a sua proteção.
JE — Quando o senhor volta a um a lugar, sente a falta deles?
Bordenowski — Parece incrível, mas essas coincidências sempre acontecem. Toda vez que alguém me chama a atenção, aquilo geralmente soa como uma despedida. Claro que percebo a falta deles. Sou um homem movido pela emoção.  Mas rezo por eles também. Um menino, também com câncer uma vez me desafiou perguntado se eu era mágico de verdade. Eu disse que sim. Ele retrucou: “No duro?”. Eu respondi, “no duro”. Aí ele tirou o boné e disse: “então passa a mão aqui na minha cabeça e faça nascer cabelo de novo”. Conversei com ele e disse que tenho um amigo que faz peruca e que eu... Mas ele me interrompeu: “Você não é mágico coisa nenhuma”, e saiu. Rezei por ele e três meses depois, no final de uma das minhas apresentações, lá estava o menino, de boné. Ele me chamou, tirou o boné e me mostrando o cabelo, disse: “Cara, você é mágico no duro mesmo, olha aqui o meu cabelo”. Emocionado, disse que foi Deus quem fez nascer cabelo e que eu só tinha rezado. Pergunto: isso tem dinheiro que pague?

Um comentário:

Tadica Veiga disse...

O falecimento do Professor Bornenowski é uma grande perda para o
nosso Teatro. Com sua trajetória profissional e artística, o
Professor Bordenowski, ajudou a consolidar e fazer com que a arte do
Teatro de Bonecos fosse reconhecida e respeitada no Brasil.
Condolências aos seus familiares. Abraço,
Valmor Nini Beltrame