terça-feira, 19 de abril de 2011

Notícias do Ceará


O Núcleo-Ceará da Associação Brasileira de Teatro de Bonecos se mobiliza para anunciar a 27 de abril, dia nacional do Teatro de Bonecos, a instituição do Prêmio Pedro Boca-Rica, em homenagem a Pedro dos Santos Oliveira, histórico escultor e bonequeiro cearense, mestre de gerações.

A premiação deverá a partir de 2012 ser entregue àqueles que contribuam com montagens e/ou fomentos de produção para a difusão dessa modalidade teatral, arte milenar expressa em inúmeras civilizações de todos os continentes e prática adotada inclusive no Brasil do século XVI pelo teatro catequético dos jesuítas.

No nosso Estado, essa tradição de gestas populares - que incorpora temas dos autos dramáticos, dos folguedos, das narrativas orais e do realismo fantástico - se consolidou como uma referência fundante de nossa identidade nas artes cênicas e vem sendo transfigurada em diversas formas de confecção e manipulação, desde os bonecos de fios, os de balcão, os gigantes, os marotes e, sobretudo, os mamulengos.

Por variantes culturais de história e geografia, os mamulengos recebem diferentes denominações. No Rio Grande do Norte, por exemplo, são chamados de João Redondo, Benedito ou Babau; em São Paulo, de João Minhoca; em Minas Gerais, de Briguela. Na zona rural do Ceará, por alusão a um personagem recorrente em incontáveis enredos, os animados por mãos molengas costumam ser denominados de Cassimiro Coco.

Herdeira de uma linhagem de anti-heróis, essa persona mamulengueira absorve e reprocessa seus protótipos ibéricos, reinventando-se na brasilidade que o faz personalizar a sagacidade transgressora capaz de subverter o status quo não apenas pelo uso da violência física, mas, sobretudo, pela força da artimanha maledicente e do argumento ladino.

Uma das matrizes da dramaturgia tradicional popular, o Cassimiro literalmente bota boneco. Suas peripécias nos demonstram o quanto os verbos brincar e representar são sinônimos, pois até mesmo as palavras brinquedo e brincadeira, quando alusivas às calungas e aos calungueiros, designam respectivamente o boneco e a representação que o manipulador empreende.

Cassimiro pertence à estirpe de figuras ficcionais que nunca envelhecem, preservando incólume dentro de si, mesmo na maturidade, a meninice vocacional de uma tipologia na qual resistem, dentre outros, astutos como o João Grilo da literatura de cordel. E então, em face de suas astúcias, os espectadores se dão conta não tão-somente daquela infância atemporal, mas também, em contraposição, do embrutecimento que a alma menina pode sofrer ao deparar-se com os rituais da fase adulta.

Por isso é que tocados pela sensação de alumbramento e estranheza ante o mundo que o Cassimiro Coco transmite, rimos todos nós com a trágica alegria de nos sabermos dialeticamente tão estranhos e ao mesmo tempo tão pertinentes à condição humana.

Ricardo Guilherme
ricardo-guilherme@uol.com.br
Escritor, teatrólogo e membro do conselho de leitores do O POVO

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