terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Projeto Memória - A nova geração de bonequeiros Paranaenses

Encantadores de bonecos em ação

A arte milenar conquistou uma nova geração de artistas. A paixão e a influência familiar inspiram esse grupo, que solta toda a criatividade em cena no trabalho com os mais fantásticos personagens

  • Angela Antunes • @antunesangela • angelaa@gazetadopovo.com.br - 29/01/2011 às 00:30
Quem optou por passear pelo Parque São Lou­renço, em Curitiba, no último sábado (22) teve uma surpresa e tanto. Adultos, adolescentes e crianças trocaram as caminhadas, o carrinho de rolimã e o parquinho por uma reunião em torno de um pequeno palco, no qual conheceram personagens pra lá de criativos.
A grande atração era a peça Um Conto Pra Nossa História, da Cia. Arte e Manha, de Guarapuava, interior do Paraná, especializada em teatro de bonecos. Nos bastidores, uma garota chamou a atenção da equipe do GAZ+ – Daiana Felchak, de 20 anos, a mais jovem integrante da trupe.
Formado apenas por membros de uma mesma família, o grupo se dedica à divulgação desta arte milenar. E esse universo mágico faz parte da rotina de Daiana, que entrou na onda – como muitos outros jovens bonequeiros de sua geração – por conta da influência dentro de casa. “Eu nasci nesse meio, e desde pequena eu sonhava em fazer a minha primeira peça, que foi aos 6 anos”, conta.
Pouco a pouco, Daiana e outros jovens fazem história. E a veia familiar, de fato, conta muito. No caso de Manoel Kobachuk, 65 anos, por exemplo – referência nacional quando o assunto é teatro de bonecos –, todos os três filhos seguiram seus passos. “Eu fiz de tudo para que eles seguissem outro caminho”, brinca o pai de Pedro, 23 anos, Bernardo, 32, e Simone, 44.
Para Bernardo, não existia outro caminho – o cara se formou em Artes Cênicas na FAP, e trabalha ao lado do pai desde pequeno. Pedro até que tentou: estuda Design, e resistiu até o último momento. Depois de passar um tempo só atendendo telefone no ateliê de Manoel, ele acabou se envolvendo em todo o processo. “É uma coisa muito mágica. A marionete pode fazer qualquer coisa”, define ele, que se prepara para lançar seu primeiro espetáculo próprio ainda este ano.
Paixão
Na hora de falar dos pontos positivos do trabalho como bonequeiro, não faltam adjetivos. “Você consegue mostrar a realidade através do lúdico”, observa Daiana. Além, é claro, das mil possibilidades que esta técnica proporciona. “Os bonecos trazem mais possibilidades. Boneco voa, dá cambalhotas, faz qualquer coisa. Como ator você tem certas limitações”, comenta Ali Freyer, 22, outro artista bacana que encontramos nesta tarde teatral no Parque São Lourenço.
Ali, ao lado das amigas Helena Veiga, 17, e Juliane Souto, 20, integra a Cia. dos Ventos, que le­­­vou ao parque o espetáculo O Pequeno Solitário. “É uma magia diferente. Temos que ter todo o cuidado com a movimentação, são muitos outros detalhes”, define Helena – que também entrou nesta vibe por influência de sua mãe,  que atua na área.
Juliane e Ali, por outro lado, ingressaram no meio por conta própria. Ambos já trabalhavam como atores, e foram fazer um curso com a Tadica Veiga, mãe de Helena. Deu no que deu – eles se apaixonaram pela arte, e resolveram levar adiante. Tudo com muito esforço, é claro. “Quando você é um novato, não tem moral para conseguir dinheiro do governo para financiar um espetáculo seu”, reitera Ali.
Uma descoberta inesquecível
Layane da Silva Soares, de 17 anos, caiu de pára-quedas em uma oficina bacana sobre a arte do teatro de bonecos – que rolou na semana passada no Centro de Criatividade de Curitiba, no Parque São Lourenço. A adolescente está há apenas duas semanas em Curitiba – ela saiu de Londrina e veio à capital paranaense morar com a irmã e se dedicar aos estudos.
Enquanto a mana trabalha na Casa da Leitura, a jovem aproveitou o curso para conhecer melhor os segredos da manipulação e confecção de personagens. “Eu nunca tinha mexido com isso”, conta ela, que estava para lá de enturmada não só com os outros participantes (muitas crianças e adultos!), mas também com o material utilizado para a produção.
Jacarés, aviões, sapos... Tinha um pouco de tudo! Feito com papel machê, uma cola especial e papelão, o resultado final era incrível. “Depois de fazer os bonecos, inventamos uma história e encenamos. No fim, acabamos nos conhecendo ainda mais”, revela Layane. “Estou me divertindo demais. Não acho que é o que eu quero fazer para a vida, mas como um hobby, vou fazer sempre que tiver oportunidade”, reitera. Mauro Ikeda, 17, também aproveitou as tardes de folga nas férias para embarcar nesta aventura. “Arte eu sempre aprendi na teoria. Aqui a gente coloca a mão na massa”, completa.
Para quem quer se aventurar na área
Como já comentamos, o teatro de bonecos é uma arte milenar – que remonta à Pré-História. Bastan­­­te popular em países como a China, Índia e Indonésia, no Brasil ainda é – de certa forma – recente, especialmente quando se trata de grupos profissionais
Por mais que seja uma arte que, normalmente, é passada de pai para filho, qualquer pessoa pode se tornar um bonequeiro. O que falta, na verdade, são cursos profissionais.
Por isso, vale a pena ficar de olho nas oficinas e festivais, que acontecem com frequência em Curitiba. Outro ponto de partida é sair em busca de uma das 35 companhias que fazem parte da Associação Paranaense de Teatro de Bonecos (http://aprtb.blogspot.com/).
É claro que viver do teatro de bonecos – assim como da arte em geral – ainda é bem difícil. No entanto, não é impossível. Odílio Malheiros, bonequeiro há 35 anos e participante do grupo Mundaréu, garante que há sempre alguma oportunidade. “É complicado viver de arte e cultura em qualquer lugar, mas você vive. Mercado tem, e espaço também”, completa.

Hugo Harada/Gazeta do Povo
Hugo Harada/Gazeta do Povo / Daiana Felchak, 20 anos, da Cia. Arte e Manha, de Guarapuava: paixão pelos bonecosDaiana Felchak, 20 anos, da Cia. Arte e Manha, de Guarapuava: paixão pelos bonecos

Para quem quer conferir de perto esse universo, a programação das Férias Animadas 2011 é uma boa pedida. Inclusive, dois espetáculos são encenados hoje (29), às 11 horas, no Bosque Cambuí, e às 15 horas, no Centro de Criatividade de Curitiba, no Parque São Lourenço; e também amanhã (30), às 11 horas, no Teatro do Piá, e às 15 horas no Centro de Criatividade de Curitiba. Mais in­­formações: (http://feriasanimadas2011.blogspot.com/).


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