terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Projeto Memória - Filhos da Lua


Matéria de 13/06/2006  

Candiê Marques
Cena de O Anjo do Bosque, espetáculo que faz parte da mostra1· 75 · 0

Foi em uma comunidade rural do Rio de Janeiro, na década de 70, que nasceu o embrião do Filhos da Lua. No começo não era ainda era um grupo profissional de teatro, mas algumas pessoas que traziam na alma o apego à arte de fazer e dar vida a bonecos, que se juntaram para dar uma animada artística, digamos assim, nas redondezas de onde viviam. Renato Perré, hoje presidente Associação Brasileira de Teatro de Bonecos, era uma dessas pessoas e foi ele que transformou, ao chegar em Curitiba, já no primeiro ano da década de 80, o grupo familiar na companhia profissional Teatro Filhos da Lua. Com a firme intenção de unir a linguagem dos títeres ao teatro tradicional, adicionando deliciosas pitadas de cultura popular à essência.

Ele veio com esposa e filha para a ainda pacata Curitiba - que já se insinuava rumo à fama de capital brasileira de primeiro mundo - e aqui encontrou a mãe, Dona Maria Teresa, uma bonequeira já popular na cidade. “Casei com uma curitibana e quando cheguei aqui nasceu o grupo junto, também, com meu irmão, o músico Rogério Carvalho. Era um grupo de família”, conta.

E lá se vai um quarto de século, tempo em que nada menos que 25 montagens, ganhadoras de vários prêmios, ajudaram a construir essa história de amor às artes, em especial às cênicas - e mais perto ainda dos bonecos. Os espetáculos alçaram Perré e seus Filhos da Lua para um posto de destaque no teatro paranaense e brasileiro. Ele cria, encena, escreve, dirige. Só é incapaz de escolher seu lugar preferido nesse processo lúdico. “Faço um teatro que é de autor, tem um repertório. No mais recente espetáculo fiz uma colagem dessa história, a minha homenagem à arte”.

E Perré também mantém um jeito simples, de gente chegada do interior, que é encantador – e não rima com falta de firmeza, pois a persistência é uma constante na vida desse homem que nunca arredou o pé de sua disposição inicial de integrar os títeres a outras formas de arte.

Do começo no Rio de Janeiro - onde ele e sua trupe não paravam de inventar atividades para inspirar os moradores do lugar que carecia de um tipo de alegria e sabedoria que só arte pode trazer pro coração da gente – eles vieram para os Circos da Cidade. Os circos eram espaços culturais da Fundação Cultural de Curitiba instalado nos bairros que fizeram história – é só caminhar por determinadas regiões da cidade e conversar com moradores mais antigos, para ouvir alguma queixa do fim desse projeto. Lá embaixo das lonas, eram muitas as atividades artísticas e as tardes ou manhãs, depois ou antes da escola, passavam num sopro de tão rápido para as crianças e adolescentes que participavam das brincadeiras.

“Começamos já interagindo com o público que não era das salas oficiais. Temos essa raiz de buscar pessoas que normalmente não têm acesso aos espaços convencionais. E assim fomos evoluindo artisticamente, fazendo oficinas com outras pessoas e conhecendo gente importante que nos influenciou muito”, conta Perré, citando nomes que esta repórter não conhecia, como Ilo Kruegli e Hector Grilo.

“É porque são pessoas que não estão na mídia. O Hector é da Argentina e está lá produzindo”, diz, simpático, o bonqueiro, citando outro nome importante, este mais conhecido, Osvaldo Gabrieli, hoje do XPTO. “E, claro, o Manoel Kobatchuk (N.R. Outro nome referência que atua em Curitiba). Enfim, havia uma interação muito legal, fui até para a França fazer estágio no Instituto Internacional de Marionetes”.

As viagens e trocas culturais foram essenciais para que ele também fosse criando um núcleo de pessoas que se relacionam artisticamente. “O Rogério Gulin, hoje no Viola Quebrada (N.R: Grupo musical curitibano que faz estudos que trazem de volta a música caipira em seus discos). Ele começou a tocar com a gente na pesquisa do fandango e da cultura popular. E também o Jorge Vigário, outro bom trabalhador de teatro, ator e bonequeiro”, cita Perré.

Às próprias custas

Naquela época não tinha leis de incentivo, mas não é a primeira vez que ouço alguém do meio dizer que os artistas do teatro eram mais independentes. “Nós fazíamos tudo. Não é que a gente não tivesse apoio. A classe tinha uma capacidade de mobilização muito grande, fazíamos muitos trabalhos em co-produção com o Teatro Guaíra – é, o Guaíra era uma casa de produção! Isso até os anos 90. A partir dali entraram as leis e o Estado começou a diminuir suas responsabilidades na questão produtiva. Mas, a gente percebe que não é possível que o Estado faça isso, ele tem que continuar sendo parceiro”, diz.

Perré lembra também as fecundas parceiras com a Funarte e o Serviço Nacional de Teatro. “Os grupos sempre tiveram algum apoio oficial, mas também, sempre se viraram com suas próprias pernas. E a gente sempre fez um teatro pobre nesse sentido de não precisar de grande cenografia, sempre optamos por trabalhos mais centrados na figura do ator, na força da música, do boneco, da dramaturgia”.

Política Cultural

Assim foi tudo se estruturando, com a arte educação andando lado a lado, como deve ser, com a produção artística. Nesse tempo o jeito de fazer arte mudou e ficou mais dependente e individualista. “Houve uma mudança de mentalidade com entrada desse neo-liberalismo, as pessoas tiveram de se isolar um pouco, ficaram muito individuais nessa luta. Antes era mais fácil estar junto, não é que não se queira mais isso hoje. Mas a corrida competitiva dificulta essa capacidade de articulação coletiva. Antigamente havia uma cultura de estar junto, até como resistência”, lembra o diretor, e logo emenda que, no entanto, barreiras estão sendo vencidas.

Não podemos abandonar as conquistas, prossegue. “Essa articulação para implantação de um sistema nacional de cultura, que esta sendo discutida, e estou participando, por exemplo. Isso é para dar ao Governo um sistema que funcione independente de quem está no comando, como o sistema de saúde e educação. Estou otimista porque este governo, pelo menos, se preocupou em conversar com a gente para criar diretrizes de trabalho. Estamos batalhando também para garantir a sustentabilidade dos bonecos como arte popular e erudita que é. Queremos escolas básicas de teatro de bonecos”, defende. Do Governo Estadual ele diz que falta exatamente o que o Federal deu. “Temos que refletir sobre o governo Requião, porque é preciso assegurar que a classe tenha espaço para conversar mais, isso que está faltando”, observa.

Em sua vida profissional, Perré nota que o grupo está fechando um ciclo e, de certa maneira, voltando ao começo. “Estamos de novo trabalhando com a comunidade, numa perspectiva de educação ambiental. A arte é grande parceira nesse momento em que o ambiente está necessitando de transformação e cidade não dá mais conta do que ela criou em termos de ocupação urbana”, diz. Ele voltou a trabalhar com moradores da zona rural, agora em Bocaiúva do Sul, cidade vizinha de Curitiba, no projeto Terrinha Cultural, ainda sem apoios. “A idéia é trabalhar arte ciência e educação ambiental. Mas vamos recorrer às leis sim, só queremos antes engrenar o trabalho, fazer uma ONG”, conta, dando outra lição para os que estão acostumados a esperar.

Comemoração

Enquanto isso, ele aproveita para celebrar os 25 anos de atuação com uma mostra de algumas peças e uma exposição. Entre os espetáculos, escolheu quatro. Três deles integram a série dedicada às cantigas de roda; Terezinha, História de Amor e Perigo (contemplado em 1997 com o prêmio Gralha Azul de melhor texto para criança e juventude, e realizado pela Lei Municipal de Incentivo a Cultura); O Gato e Dona Chica, uma das montagens mais antiga da série, apresentado com técnicas tradicionais e populares de bonecos de vara e luva; eO Anjo do Bosque, co-produção do Teatro Guaira, inspirada na cantiga “Se essa rua fosse minha”. Outro espetáculo a ser apresentado é Urucum e o Fogo, inspirado na cultura indígena. 

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