terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PROJETO MEMÓRIA -O TIM e a mobilização boca-a-boca nos anos de chumbo

O TIM e a mobilização boca-a-boca nos anos de chumbo

O Teatro Infantil de Marionetes -- TIM, grupo de teatro de marionetes, de Porto Alegre, dirigido pelo ANTONIO CARLOS SENA em plena repressão, nos anos sessenta, apresentava na Rua da Praia, entre outros locais públicos, um subversivo teatro de marionetes como forma de resistência ao regime vigente. Por motivos óbvios, a organização e a mobilização eram feitas no boca-a-boca -- telefone ou qualquer outro meio de comunicação, nem pensar. Qualquer falha na mobilização, e seus integrantes corriam todos os riscos. Os militares como bons filhos da pátria ficavam espertos para qualquer lance que cheirasse à subversão. Alguns participantes do grupo do TIM ficavam espalhados pela área da representação teatral -- olheiros espertos, capazes de ver e sentir de longe o cheiro da repressão. E não há exagero nessa afirmação, porque eles eram os responsáveis pela segurança do grupo, avisando de qualquer suspeita na área para uma retirada estratégica do local, antes da chegada da polícia da repressão.

Entre os integrantes do TIM, o jovem estudante universitário MARCO AURÉLIO GARCIA, (atual ministro para assuntos internacionais), o jovem aspirante do CPOR de Porto Alegre, FERNANDO PEIXOTO (o conhecido ator, diretor teatral e um dos fundadores do Teatro Oficina) e mais o jovem estudante universitário ANIBAL DAMASCENO (o conhecido professor Anibal, escritor, pesquisador, um dos descobridores de Qorpo Santo) eram os autores dos subversivos textos do TIM.

Em tempo: O Teatro Infantil de Marionetes, o TIM de Porto Alegre, apesar de pouco conhecido em nosso País, tem uma respeitável carreira com apresentações no exterior e prêmios em importantes festivais internacionais. Foi criado há mais de cinqüenta anos pela artista plástica Odila Sena -- mãe do diretor do grupo. E o Antonio Carlos Sena tem no seu brilhante currículo, a direção da primeira montagem de Qorpo Santo, o genial autor gaúcho, considerado o precursor do teatro do absurdo.


Entrevista – Jornal Zero Hora conversou com Antônio Carlos de Sena, 63 anos, filho da fundadora do grupo, para relembrar algumas histórias dos 50 anos do grupo. 19-09-04
Da Escola ao Palco
Provavelmente o mais antigo grupo de marionetes da América Latina em atividade ininterrupta, o TIM - Teatro de Marionetes, o grupo gaúcho TIM - nome que antes correspondia à sigla Teatro Infantil de Marionetes e que depois virou nome mesmo - começou como experiência didática, em 1954, quando a então professora de artes do Colégio Duque de Caxias Odila Cardoso de Sena aprendeu em um curso a confeccionar marionetes para usar em aula. Os três primeiros, utilizados em breves esquetes na própria sala de aula, logo passaram a 'atuar' em festas da família Sena e da vizinhança, no bairro Azenha, em que moravam na época.
Odila, hoje com 91 anos, continuou fazendo marionetes e logo o filho Antônio, 14 anos na época, e alguns amigos completavam a primeira formação do grupo. Os 'atores', hoje em número de 80, foram todos confeccionados por Odila. A cabeça, esculpida em uma massa formada por serragem e cola artesanal. O corpo, moldado em arame e forrado com algodão e tecido. Detalhe: todos os 80 bonecos ainda usados pelo TIM são os mesmos feitos por Odila entre 1954 e 1961.

Rumo a São Paulo
A profissionalização do TIM se deu em 1958, quando Antônio Carlos e os três amigos viajaram a São Paulo em uma aventura artística. Sem nada agendado, puseram os bonecos na mala e rumaram à capital paulista para batalhar espetáculos e apresentações. Tiveram sorte. O amigo na casa de quem ficaram hospedados conhecia um produtor da TV Tupi, e o grupo foi parar na telinha, novidade recente no Brasil. A visibilidade da tevê ajudou a garantir um teatro para o grupo se apresentar por duas semanas, sempre com casa cheia.
- TV era algo de que a gente aqui só havia ouvido falar. Fomos conhecer o que era já dentro do estúdio, sendo entrevistados - conta Antônio.

Seu 'Mário'
Ainda no começo dos anos 60, Antônio Carlos de Sena e os amigos que também formavam o grupo aproveitaram uma excursão pelo interior do Estado para divertirem-se em um baile.
Na manhã seguinte, o grupo faria um espetáculo em um cinema da cidade, e o jovem Antônio procurou o locutor do clube e se apresentou como 'diretor do Teatro Infantil de Marionetes', pedindo para dar um recado sobre o show.
O locutor pediu a atenção de todos, chamou Antônio ao palco e anunciou com toda solenidade:
- Este é o Senhor 'Mario Netes', diretor do Teatro Infantil que se apresenta amanhã.

Antônio e os amigos seguraram o riso e, elegantemente, evitaram corrigir o homem.

- O homem passou o baile todo querendo saber se Netes era um sobrenome italiano ou espanhol - relembra Antônio.

Na TV Piratini
A experiência na TV Tupi, em São Paulo, garantiu que o TIM fosse chamado em 1960 para um programa semanal na recém aberta TV Piratini, Canal 5. Nos heróicos tempos sem videoteipe, a cada semana o grupo tinha a missão de levar ao ar uma história diferente, aprendendo enquanto fazia. Antônio diz que data dessa época o real aprendizado do grupo em termos de roteiro e dramaturgia. Para o programa, dona Odila confeccionou novos personagens
Um dos integrantes do grupo era o hoje assessor especial para Assuntos Internacionais do governo Lula, Marco Aurélio Garcia. Antônio lembra, divertido, que foi Garcia o responsável pela 'demissão' do grupo da Piratini em 1962, ao criar um roteiro que contava, com marionetes, a fracassada invasão americana à Baía dos Porcos, em Cuba, para derrubar Fidel Castro do poder.

- Naquela época, TV ao vivo e tal, a gente aprontava as coisas e com muita liberdade. Quando a direção viu, o programa já estava no ar.

Íntegra da reportagem publicada no jornal ZERO HORA de 18/setembro/2004.

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